Rod Serling e Erasmo de Roterdam entre escombros
Enquanto eu trabalhava em parceria com Lucas Margutti na decupagem de um curta-metragem que eu havia escrito (o que merece um post à parte), fui convidada pelo pai dele, o ator Ricardo Petraglia pra escrever um monólogo. Entre os trabalhos de faculdade e meu trabalho paralelo com o filme, me deparei com “O Elogia da Loucura” do holandês Erasmo de Roterdam. É gigante, cansativo, mas vale a pena encarar.
Então levei a idéia pra ele, que não conhecia o Roterdam. Ele gostou. Aí, me veio à cabeça uma estória de um episódio de Twilight Zone, um episódio clássico que narra a vida de um homem de pós-meia-idade, que trabalha como caixa num banco e usa pesados óculos fundo de garrafa. Nas horas vagas, ele dedica-se a leitura, mas o problema é que ele nunca consegue sossego suficiente pra isso. Em casa, a mulher fala o tempo todo, no trabalho não há um canto reservado. Mas a vontade de ler, de se perder entre palavras era tão grande que ele decidiu almoçar seu sanduíche de pasta de amendoim (os americanos chamam isso de almoço... valha-me Deus), escondido no cofre do banco. E lá foi ele, segurando o sanduíche numa mão e um livrinho na outra.
Dizem que a literatura tem o poder de transformar o indivíduo, praticamente um meio de redenção. E foi justamente neste momento, que ele sentiu o tremor. Foi brutal. Dentro do cofre tudo bem, mas quando saiu, o mundo simplesmente havia acabado. Uma hecatombe. Ele vagou por entre escombros, solitário por algum tempo, até se deparar com a escadaria em ruínas da grande biblioteca da cidade. Uma escadaria que não levava a parte alguma, interrompida, mas numa arquitetura clássica.
E sobre os degraus, centenas de livros amontoados. Livros para uma eternidade. E num estalo, ele percebeu que agora poderia ler para o resto de sua vida, porque tinha todo o sossego do mundo e foi o que ele começou a fazer, abrindo exaltado os livros, até que ao se esticar para pegar um exemplar mais distante, seus óculos fundo de garrafa caíram e se espatifaram todinho.
Ele tinha livros para uma eternidade, mas não tinha olhos para lê-los.
E com esses ingredientes, geneticamente modificados, “O Rei dos Escombros”, montado em 2003 pelo diretor Moacir Chaves e com cenário assombroso de Fernando Mello da Costa, foi levado aos palcos. O texto é assinado por mim, Mauro Santa Cecília e pelo próprio Petraglia.
A crítica massacrou a estória do sujeito desesperado, sem dinheiro, que tenta se matar enfiando a cabeça dentro do forno, mas não consegue porque o gás foi cortado por falta de pagamento e ele não sabia. Enquanto isso, o mundo lá fora desaparece por instantes e o personagem entra num limbo de divagações e coisa e tal. A coisa toda tem uma verve bem Rock´n´roll. Não iria agradar a crítica de qualquer maneira. Acho isso até interessante sob certo aspecto.
Tenho minhas restrições quanto ao texto, evidentemente. Eu tinha só 23 anos quando escrevi. Eu mudei de lá pra cá. E certamente consideraria novas inserções.
Em junho deste ano, conheci em São Paulo o diretor de teatro, Naum, e num breve papo ele me disse que ele mesmo não gosta de muita coisa que escreveu, tem suas restrições. Bem, a visão do artista sobre a própria obra é muitas vezes conturbada. Mas vale conferir. É uma peça despretensiosa, arranca umas risadas e tem umas passagens bem interessantes. Conheci pessoas que acharam o espetáculo arrebatador, outras torceram o nariz. A melhor coisa é tirar conclusões próprias.
Não sei como está agora, depois de tanto tempo, mas no teatro o texto pode amadurecer conforme as apresentações e reações do público. É sempre uma obra entreaberta.
Para conferir, o espetáculo está sendo apresentado (serviço abaixo) em sessão dupla com a peça “José, e agora?” Texto e interpretação de Cadu Fávero e direção de Leonardo Brício. Não sei do que se trata esta outra peça, mas no cartaz diz que é uma “história surpreendente que acontece toda hora na porta de sua casa.” O ingresso pra sessão dupla custa só DOIS REAIS.
No mais... é isso.
Serviço:
Rua dos Arcos, 24 – Fundição Progresso _ Lapa
Todas as terças às 19h
Do dia 08 de novembro até 06 de dezembro.
Então levei a idéia pra ele, que não conhecia o Roterdam. Ele gostou. Aí, me veio à cabeça uma estória de um episódio de Twilight Zone, um episódio clássico que narra a vida de um homem de pós-meia-idade, que trabalha como caixa num banco e usa pesados óculos fundo de garrafa. Nas horas vagas, ele dedica-se a leitura, mas o problema é que ele nunca consegue sossego suficiente pra isso. Em casa, a mulher fala o tempo todo, no trabalho não há um canto reservado. Mas a vontade de ler, de se perder entre palavras era tão grande que ele decidiu almoçar seu sanduíche de pasta de amendoim (os americanos chamam isso de almoço... valha-me Deus), escondido no cofre do banco. E lá foi ele, segurando o sanduíche numa mão e um livrinho na outra.
Dizem que a literatura tem o poder de transformar o indivíduo, praticamente um meio de redenção. E foi justamente neste momento, que ele sentiu o tremor. Foi brutal. Dentro do cofre tudo bem, mas quando saiu, o mundo simplesmente havia acabado. Uma hecatombe. Ele vagou por entre escombros, solitário por algum tempo, até se deparar com a escadaria em ruínas da grande biblioteca da cidade. Uma escadaria que não levava a parte alguma, interrompida, mas numa arquitetura clássica.
E sobre os degraus, centenas de livros amontoados. Livros para uma eternidade. E num estalo, ele percebeu que agora poderia ler para o resto de sua vida, porque tinha todo o sossego do mundo e foi o que ele começou a fazer, abrindo exaltado os livros, até que ao se esticar para pegar um exemplar mais distante, seus óculos fundo de garrafa caíram e se espatifaram todinho.
Ele tinha livros para uma eternidade, mas não tinha olhos para lê-los.
E com esses ingredientes, geneticamente modificados, “O Rei dos Escombros”, montado em 2003 pelo diretor Moacir Chaves e com cenário assombroso de Fernando Mello da Costa, foi levado aos palcos. O texto é assinado por mim, Mauro Santa Cecília e pelo próprio Petraglia.
A crítica massacrou a estória do sujeito desesperado, sem dinheiro, que tenta se matar enfiando a cabeça dentro do forno, mas não consegue porque o gás foi cortado por falta de pagamento e ele não sabia. Enquanto isso, o mundo lá fora desaparece por instantes e o personagem entra num limbo de divagações e coisa e tal. A coisa toda tem uma verve bem Rock´n´roll. Não iria agradar a crítica de qualquer maneira. Acho isso até interessante sob certo aspecto.
Tenho minhas restrições quanto ao texto, evidentemente. Eu tinha só 23 anos quando escrevi. Eu mudei de lá pra cá. E certamente consideraria novas inserções.
Em junho deste ano, conheci em São Paulo o diretor de teatro, Naum, e num breve papo ele me disse que ele mesmo não gosta de muita coisa que escreveu, tem suas restrições. Bem, a visão do artista sobre a própria obra é muitas vezes conturbada. Mas vale conferir. É uma peça despretensiosa, arranca umas risadas e tem umas passagens bem interessantes. Conheci pessoas que acharam o espetáculo arrebatador, outras torceram o nariz. A melhor coisa é tirar conclusões próprias.
Não sei como está agora, depois de tanto tempo, mas no teatro o texto pode amadurecer conforme as apresentações e reações do público. É sempre uma obra entreaberta.
Para conferir, o espetáculo está sendo apresentado (serviço abaixo) em sessão dupla com a peça “José, e agora?” Texto e interpretação de Cadu Fávero e direção de Leonardo Brício. Não sei do que se trata esta outra peça, mas no cartaz diz que é uma “história surpreendente que acontece toda hora na porta de sua casa.” O ingresso pra sessão dupla custa só DOIS REAIS.
No mais... é isso.
Serviço:
Rua dos Arcos, 24 – Fundição Progresso _ Lapa
Todas as terças às 19h
Do dia 08 de novembro até 06 de dezembro.


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