Killing Travis

Blog de Ana Paula Maia

15 novembro 2005

O ato de engolir é voluntário

Vira e mexe, assisto algum debate pela tv, leio algum artigo, enfim... sempre alguma coisa sobre a questão da qualidade nos programas de televisão.
Quando posso, costumo zapear por alguns programas vespertinos e noturnos e sempre existe uma platéia robusta de mulheres abastadas em calorias, corpulentas, ávidas para serem abordados pelo apresentador, que batem palmas até para um espirro. Gente que aprecia contar seus problemas domésticos, expor a vida íntima em divãs bizonhos. Está na tv é importante, ter uma também... ainda mais se vier acompanhada de um home theatre.

Pessoas que gostam de discussões entre travestis e pastores evangélicos. Teste de fidelidade. Um extreme makeover consertando bocas, narizes, extraindo verrugas, suavizando cavidades enrugadas, removendo pêlos excessivos, injetando uns parasitas sob a pele que retardam o avanço das marcas de expressões, e fazem até mesmo maquiagem definitiva. Putz.... quer dizer, tatuagem na cara, ao vivo e ninguém acha isso marginal. Tatuar uma sobrancelha mais definida ou salientar os lábios para sempre. Enfim... um espetaculozinho esdrúxulo e gratuito.

Assistem porque gostam. Participam porque querem.

Com literatura não é diferente. Com música também não. Se não gosta, não leia o livro, não compre o cd. Quando eu tinha minha bandinha de punk rock, havia um sujeitinho que odiava o som que fazíamos, falava sempre muito mal, mas estava em todos os shows. Nos lugares mais estranhos em que toquei (eu tocava bateria), ele estava lá, próximo ao palco, de braços cruzados, analisando cada nota que saía daquela barulheira infernal.

Gosto de saber que existem programas esdrúxulos e público pra isso. Gosto de saber que existe gente que assiste “2 filhos de Francisco” e gosta. Gente que passa horas debaixo de chuva pra não perder o show do grupo Calypso. Gente que sabe distinguir entre Velho Barrero e Caninha da Roça.

É dessa diversidade de gostos, que tenho esperança de alcançar algumas pessoas com aquilo que escrevo. Ser lida, ao menos.
Ainda bem que nem todas as bandas fazem a mesma (ótima) música do The Kills, ou todos os filmes tenham a mesma genialidade do Lars Von Trier.

É importante toda sorte de expressão. Todo o tipo de literatura. Todo tipo de canção. Porque o ato de engolir é voluntário, mas o de regurgitar não.

E tenho um conto publicado na última edição do site Bestiário. É só clicar e ler: DESMENTALIZANDO MENINOS

3 Comments:

  • At 3:49 PM, Anonymous Anônimo said…

    Amei essa última frase. Concordo plenamente. Bem legal esse blog aqui.

    Gus.

     
  • At 12:46 AM, Anonymous Anônimo said…

    Fiquei sabendo do seu blog, no blog paralelos. Gostei muito e parabéns!
    O site é legal, tenho alguns contos publicados no ano passado.
    O seu conto é bastande descritivo. Parabéns!!

     
  • At 6:18 PM, Anonymous Anônimo said…

    Valeu Eduardo e volte sempre!

     

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