Dia em que Bruno não fez contato
Domingo. Sol. Cerveja. Churrasco. Amigos, todos homens. Um condomínio isolado no Recreio dos Bandeirantes. Futebol. Palavrões. Testosteronas.
Aquilo que parecia ser apenas uma reunião de amigos que conseguiram livrar-se das namoradas para se encontrarem e divertirem-se ao som de muito Rush, Jethro Tull e Iron Maiden, regados a drinks de Clith, vodka e gelo tornou-se o Dia em que Bruno não fez contato.
Meu amigo Bruno, essa é a estranha história de um domingo de sol regado a cerveja, vodka e Rush que não queria terminar.
No fim da tarde daquele domingo, cansado, com a cara de cheia cachaça, Bruno recolhe-se confortavelmente em seu carro, um gol vermelho, muito limpinho, bem cuidado e aromatizado. Ele liga o ar condicionado, regula a temperatura, olha os outros carros a sua volta, pertencentes aos seus amigos e antes de desmaiar sobre o banco, ele resolve tirar o cordão de ouro e já não se agüentando, porque aquele movimento já o deixa por demais esgotado, ele o lança sobre o painel, que por sua vez, escorrega e cai dentro de uma pequena abertura bem no cantinho. Mas isso Bruno não vira, até porque, enquanto o cordão cai na pequena abertura, ele caía para trás. Dorme profundamente.
Aquilo que parecia ser apenas uma reunião de amigos que conseguiram livrar-se das namoradas para se encontrarem e divertirem-se ao som de muito Rush, Jethro Tull e Iron Maiden, regados a drinks de Clith, vodka e gelo tornou-se o Dia em que Bruno não fez contato.
Meu amigo Bruno, essa é a estranha história de um domingo de sol regado a cerveja, vodka e Rush que não queria terminar.
No fim da tarde daquele domingo, cansado, com a cara de cheia cachaça, Bruno recolhe-se confortavelmente em seu carro, um gol vermelho, muito limpinho, bem cuidado e aromatizado. Ele liga o ar condicionado, regula a temperatura, olha os outros carros a sua volta, pertencentes aos seus amigos e antes de desmaiar sobre o banco, ele resolve tirar o cordão de ouro e já não se agüentando, porque aquele movimento já o deixa por demais esgotado, ele o lança sobre o painel, que por sua vez, escorrega e cai dentro de uma pequena abertura bem no cantinho. Mas isso Bruno não vira, até porque, enquanto o cordão cai na pequena abertura, ele caía para trás. Dorme profundamente.
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Os olhos doem, a boca está amargando, o corpo dolorido, as pernas dormentes. Bruno acorda algumas horas mais tarde. Os carros à sua volta desapareceram, o sol já deixou de sorrir faz horas, cedendo lugar para uma bela lua cheia. Abre a porta e se coloca de pé, zonzo e movimentando as pernas para que despertem. Olha ao redor e tudo que ouve são algumas cigarras. Caminha até a casa de seu amigo, tudo apagado. Ninguém. Os amigos foram embora. Sente-se perturbado por uns instantes. Apanha o celular no carro, está sem bateria. Caminha alguns metros e percebe que a guarita do isolado condomínio está a alguns quilômetros dali. Retorna para o carro e é aí que uma brisa geladinha o faz parar e perceber sua vestimenta: uma sunga vermelha. Sente vontade de rir, de nervoso é claro.
Senta-se diante do volante e diz: “É possante, só ficamos nós dois.” Gira a chave e o possante parece ter ingerido algumas doses de cerveja também. A bateria arreou. Possante não respondia, não fazia contato. Então Bruno habilmente, solta o freio de mão e empurrando o carro com a porta aberta, parte do corpo pra dentro, parte para fora, faz possante dar uns bons coices e após trancos insustentáveis, o faz retornar à vida.
Encontra a saída do condomínio. Acelerado, em pouco tempo está cruzando a Linha Amarela, mais especificamente a Vila do João e sente-se um herói após atravessar toda a via expressa sem sofrer danos. Estando na Linha Vermelha, a mil por hora, sentindo-se bem mais calmo, coloca um cd do Jethro Tull e cantarolando Aqualung sente-se menos sozinho.
Um toque abafado, conhecia Aqualung de trás pra frente. Não havia nenhum toque abafado naquele momento da música. O toque é crescente e percebe em seus aguçados ouvidos que o toque vem de trás. Com a mão esquerda no volante, a direita dana a procurar pelo possível objeto que toca incessantemente no banco traseiro. Nada. Desliga o cd. O toque continua crescente. Pára na linha vermelha, fora do acostamento e abre o porta-malas. Bruno, descalço e vestindo a sunguinha vermelha que combina com o exato tom de seu carro, vasculha debruçado no porta-malas. Um carro passa ao lado e um grito como “que bundinha” ecoa na fria noite. “Bundinha é o caralho-viado-filhadaputa”, ele resmunga.
Acha um celular, mas quando atende já é tarde demais. Pensa por alguns instantes de quem poderia ser, e lembra-se que é de seu amigo, a quem deu carona até o inóspito condomínio.
Bruno que bundinha, volta para o carro e puto da vida acelera, 60, 80, 100, 120 km, com o telefone numa mão, o volante na outra e o REM distorcido saltando da caixa de som para aplacar os ânimos. Quando atendem o telefone, a blitz adiante o manda parar. Ele ignora e é seguido por alguns metros. Desliga o telefone. Pára o carro. Desliga o REM. Desce do carro e o asfalto lhe incomoda os pés. O guarda aproxima-se e exorta Bruno, que responde alguma coisa que ele não se lembra mais, mas a reação do policial lhe garantiu a condição de seu estado. Após Bruno responder alguma coisa, o policial afastou-se três passos.
A argumentação foi pesada, Bruno estava valente, ainda que semi-nu, não se intimidava. Enfrentou o policial com sólidos e alcoolizados argumentos adquiridos em seu curso de Direito e conseguiu se safar sem levar nenhuma multa sequer.
60, 80, 100, 120 km, REM distorcido saltando da caixa de som, outra blitz. Desce do carro, o pé já está criando um cascão, o policial, um coroa com cara de figurante do Chaves interpela Bruno por muitos instantes. Novamente a argumentação foi pesada. Usou um vocabulário de advogado.
“A vistoria do carro não está em dia”, disse o policial. “Eu não faço vistoria no carro”, Bruno, o implacável advogado da sunga vermelha, responde. “Tá tudo pago. IPVA..........” ele pensa em mais alguma carga tributária e repete mais duas vezes enfatizando com os dedos, “IPVA, IPVA”. De alguma maneira milagrosa, o policial mantendo distância considerável de Bruno por causa do hálito refrescante, acaba por perguntar: “Seu pai é delegado, não é?” Bruno tirava uma marra de pai delegado. Ele é danado quando bêbado semi-nu. “Meu tio é”, ele responde.
60, 80, 100, 120 km, REM distorcido saltando da caixa de som, e ele consegue chegar em casa. Pensando no banho, na cama confortável, Bruno encontra a mãe histérica, ligando para hospitais e delegacias, a namorada exasperada ligando para o melhor e perguntando incessantemente: “Você sabe onde ele tá. Não precisa dizer o nome da vagabunda, só diga se está bem.” E Bruno percebeu que sua noite tinha apenas começado. Sentiu saudades dos policiais, e de toda a argumentação adquirida durante cinco anos de faculdade que o livraram completamente bêbado semi-nu de duas blitz na Linha Vermelha, mas a mãe e principalmente a namorada não engoliu essa história. Contou todo o acontecimento utilizando os mesmos métodos que com os policiais, só que bastante sincero e não obteve resultado nenhum. Passado meses, Bruno ainda é acusado por aquele dia e não sabe que tipo de argumento usar com a namorada, que desempregada faz algumas provas para concursos públicos. A próxima será para Polícia Federal. Ele tem esperança que ela seja aprovada e validar todos os seus argumentos.
Ps: Essa história é real. Aconteceu em 2004. Acredito, porque conheço o Bruno desde os 14 anos. Com ele, tudo isso é passível e possível de ocorrer.
*That´s all folks*


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