Killing Travis

Blog de Ana Paula Maia

08 fevereiro 2006

Desmentalizando Meninos

Drip drip drip. A língua trepidando no céu da boca, os dentes travados, o maxilar tensionado. Drip drip drip. Os meninos olhando o corpo debatendo-se no chão da sala de aula.

Os olhos selvagens dos meninos cabem a crueldade de uma cidade. Mirá-los até o fundo do crânio, nota-se o oco insano. Não gritam socorro, não se movem, só esperam o sinal soar. Demência cabível à desmentalização. E já estão todos assim, até os nem tão meninos.

Os olhos vão contorcendo-se até tornarem-se brancos, a saliva espumando nas laterais da boca. Os ouvidos incinerados. Bem de perto pode-se ver as faíscas. Rolando, batendo, sangrando. E os meninos estão parados olhando o que se contorce.
Não fazem nada, a não ser, muita força com a mente. Visualizam a morte em quadrinhos. Recortada, com legendas, seqüênciada. A professora não percebe nada enquanto escreve no quadro drip drip drip. Ela não olha para trás, não ouve os dentes trincando e a língua trepidando no céu da boca, fazendo o drip drip drip.

Dois minutos para o sinal soar. Dois minutos para o intervalo de vinte minutos. Um descanso para o cérebro, para a mente desgastada dos meninos. O que se debate segura o pé de um deles, o que está mais próximo, e ele não se importa.

Ali há apenas meninos; uniformizados, penteados e engraxados. Repetem o drip drip drip em voz alta, harmonioso. Não sabem o que significa, mas repetem. Até o que se debate de olhos revirados e boca espumante repete. São apenas meninos. Não sabem lidar com as emoções. Aprendem o que os ensinam. Aprendem e repetem. Tão pouca emoção. Não sabem para que vai servir, mas repetem mesmo assim. Sem significado, sem emoção, pouca razão. Drip drip drip. O sinal soa forte como de costume e é hora de um descanso. O que se debate, sossega. Não há mais nada para se ver. Calou-se para sempre. Mas antes aprendeu a lição. Drip drip drip.

[conto "non sense" publicado no site Bestiário_ ana paula maia]

That´s all folks