Aprendendo a olhar para o umbigo
Dia desses, conversando com certa senhora (que leu o meu romance “O Habitante...”) ela tentava me aconselhar. E me disse uma coisa que marretou por dias. Disse-me, esta senhora, que eu deveria aprender mais com o personagem do meu livro. “Aquele garoto tem coisas muito boas pra dizer. Experiências, entende? Presta atenção nele, Ana Paula, você vai ver.” É sério. Isso aconteceu mesmo. Foi bem no início deste mês.
Ooops.... dizem que aprendemos muito com os filhos. Então destaquei este trecho:
“......deslizei pela poltrona coloquei as pernas esticadas sobre as costas do assento da frente e estava uma maravilhava. O ar condicionado não era dos melhores mas também não estava fazendo nenhum calor exagerado. O áudio estava capengando e às vezes apareciam uns risquinhos na tela, deveria ser um rolo antigo, mas não me importava, às vezes eu gosto de ver uns risquinhos na tela e tudo. Essa coisa de tela de cristal líqüido alta resolução torna tudo realista demais. Os risquinhos e o som ruim ficam me dizendo o tempo todo que é apenas ficção e eu gosto mais assim. Confesso que na maior parte do tempo quando as pessoas olham pra mim, vêem exatamente risquinhos chuviscos e não devem me compreender muito bem porque o meu áudio está quase sempre ruim, pode parecer estranho mas sou na maior parte do tempo como um cinema velho.
O filme é sobre um escritor descendente de gregos que não era casado nem nada praticamente falido. Recebeu umas terras de herança e estava indo pra Creta ver o que fazia com aquilo. Ele queria muito escrever seu romance mas estava sem inspiração. Antes mesmo de deixar o porto de Pireus, ele conhece o Zorba que é um sujeito maluco. Eu gostei muito dele porque é maluco de uma forma que faz a gente querer ser maluco também. Ele tem um astral de levantar defuntos mas também fica deprimido às vezes. O Zorba se oferece pra ir com ele até essas terras e ajudá-lo a recuperar o lugar porque tem uma baita mina desativada e ele acaba aceitando mas quem não aceitaria, o sujeito é o diabo de doido. O local é extremamente pobre e cheio daquelas tradições bizarras. Os dois ficam hospedados na casa de uma viúva que tinha sido prostituta quando jovem e que costumava transar com quatro sujeitos da marinha de uma só vez mas que agora estava caidona. Mesmo assim o Zorba dá uns pegas nela e a chama de Bubulina. Acho que ele fazia isso de pena. Eu tive muita pena dela também. Era uma velha deprimente. Os dois começam a organizar um plano pra ativarem a mina e recuperar aquele lugar até que o Zorba decide ir pra cidade tentar conseguir um meio de tocar a coisa toda e gasta todo o dinheiro do escritor com uma prostituta que ele conhece num cabaré bem fuleiro, o Kit-Kat, a verdade é que quando os homens decidem fazer algo bom e honesto logo aparece uma prostituta pra desvirtuar tudo. Ele volta todo ferrado e duro. Uma jovem viúva fica a fim do escritor e ele é muito lerdo mas acaba dando uns pegas nela também, só que acabam matando ela no meio da rua, acho que porque ela não dava mole prum sujeito da cidade que se atira no mar por paixão. Não entendi muito bem essa parte mas eles começam a apedrejá-la e por fim o pai do sujeito que morreu afogado termina por degolá-la em pleno dia às portas de uma igreja com missa. Várias mulheres, velinhas e garotos vibram com o troço. Ninguém faz nada. O Zorba até que tentou mas não impediu o massacre da viúva misteriosa que ficou lá estirada num chão seco, abandonada. Acho que é bem comum isso por lá. Eles tem uns costumes muito estranhos. Quando a viúva velha que o Zorba estava dando uns pegas morre, um monte de gente invade a casa dela e carrega tudo, portas, cortinas, tudo mesmo. Pobre Bubulina. Um hábito muito estranho. Eu me lembro que a coisa que mais me assustou foi umas velhinhas vestidas todas de preto e com uns duzentos anos cada, sentadas no canto do quarto da velha viúva, como um bando de urubu esperando que ela morresse pra pegarem tudo. Aquilo foi deprimente. O filme é todo deprimente até mesmo quando você acha graça de alguma coisa. O escritor não consegue escrever nem uma linha, a namoradinha dele morre apedrejada e degolada, perde todo o dinheiro, a mina não volta a funcionar e tudo dá errado mas ele se sente de alguma forma muito feliz com aquilo tudo. A estória termina com ele e o Zorba dançando na praia ao som de uma música sensacional. O Zorba adora dançar e o ensina. Olhando só essa parte da dança parece até que é um filme feliz à beça mas me deprimiu bastante. Comi todo o chocolate tomei a Coca saí do cinema me sentindo meio que vagando. Deveria ter ido assistir ao outro filme, pra dizer a verdade é que eu fiquei meio frustrado porque não conseguia estar completamente na merda sem ter aquele entusiasmo do Zorba. Ele não se preocupava com nada e não ficava almejando ser um bacana nem nada estava muito bem daquele jeito e não tinha ninguém pra importuná-lo. É o tipo de pessoa que vive só pr’aquele dia e nada mais importa, nada mais, como o Jack Helm. Ele brilhava na tela sem dúvida que sim. E nem de dançar eu gostava. Se quisesse comemorar algo não sabia como fazer, essa é que era a verdade. Eu não sabia como comemorar nada droga nenhuma por melhor que fosse. Mas pensar que aquilo era só ficção me amortecia um pouco.”
[O habitante das falhas subterrâneas – ana paula maia]
Ooops.... dizem que aprendemos muito com os filhos. Então destaquei este trecho:
“......deslizei pela poltrona coloquei as pernas esticadas sobre as costas do assento da frente e estava uma maravilhava. O ar condicionado não era dos melhores mas também não estava fazendo nenhum calor exagerado. O áudio estava capengando e às vezes apareciam uns risquinhos na tela, deveria ser um rolo antigo, mas não me importava, às vezes eu gosto de ver uns risquinhos na tela e tudo. Essa coisa de tela de cristal líqüido alta resolução torna tudo realista demais. Os risquinhos e o som ruim ficam me dizendo o tempo todo que é apenas ficção e eu gosto mais assim. Confesso que na maior parte do tempo quando as pessoas olham pra mim, vêem exatamente risquinhos chuviscos e não devem me compreender muito bem porque o meu áudio está quase sempre ruim, pode parecer estranho mas sou na maior parte do tempo como um cinema velho.
O filme é sobre um escritor descendente de gregos que não era casado nem nada praticamente falido. Recebeu umas terras de herança e estava indo pra Creta ver o que fazia com aquilo. Ele queria muito escrever seu romance mas estava sem inspiração. Antes mesmo de deixar o porto de Pireus, ele conhece o Zorba que é um sujeito maluco. Eu gostei muito dele porque é maluco de uma forma que faz a gente querer ser maluco também. Ele tem um astral de levantar defuntos mas também fica deprimido às vezes. O Zorba se oferece pra ir com ele até essas terras e ajudá-lo a recuperar o lugar porque tem uma baita mina desativada e ele acaba aceitando mas quem não aceitaria, o sujeito é o diabo de doido. O local é extremamente pobre e cheio daquelas tradições bizarras. Os dois ficam hospedados na casa de uma viúva que tinha sido prostituta quando jovem e que costumava transar com quatro sujeitos da marinha de uma só vez mas que agora estava caidona. Mesmo assim o Zorba dá uns pegas nela e a chama de Bubulina. Acho que ele fazia isso de pena. Eu tive muita pena dela também. Era uma velha deprimente. Os dois começam a organizar um plano pra ativarem a mina e recuperar aquele lugar até que o Zorba decide ir pra cidade tentar conseguir um meio de tocar a coisa toda e gasta todo o dinheiro do escritor com uma prostituta que ele conhece num cabaré bem fuleiro, o Kit-Kat, a verdade é que quando os homens decidem fazer algo bom e honesto logo aparece uma prostituta pra desvirtuar tudo. Ele volta todo ferrado e duro. Uma jovem viúva fica a fim do escritor e ele é muito lerdo mas acaba dando uns pegas nela também, só que acabam matando ela no meio da rua, acho que porque ela não dava mole prum sujeito da cidade que se atira no mar por paixão. Não entendi muito bem essa parte mas eles começam a apedrejá-la e por fim o pai do sujeito que morreu afogado termina por degolá-la em pleno dia às portas de uma igreja com missa. Várias mulheres, velinhas e garotos vibram com o troço. Ninguém faz nada. O Zorba até que tentou mas não impediu o massacre da viúva misteriosa que ficou lá estirada num chão seco, abandonada. Acho que é bem comum isso por lá. Eles tem uns costumes muito estranhos. Quando a viúva velha que o Zorba estava dando uns pegas morre, um monte de gente invade a casa dela e carrega tudo, portas, cortinas, tudo mesmo. Pobre Bubulina. Um hábito muito estranho. Eu me lembro que a coisa que mais me assustou foi umas velhinhas vestidas todas de preto e com uns duzentos anos cada, sentadas no canto do quarto da velha viúva, como um bando de urubu esperando que ela morresse pra pegarem tudo. Aquilo foi deprimente. O filme é todo deprimente até mesmo quando você acha graça de alguma coisa. O escritor não consegue escrever nem uma linha, a namoradinha dele morre apedrejada e degolada, perde todo o dinheiro, a mina não volta a funcionar e tudo dá errado mas ele se sente de alguma forma muito feliz com aquilo tudo. A estória termina com ele e o Zorba dançando na praia ao som de uma música sensacional. O Zorba adora dançar e o ensina. Olhando só essa parte da dança parece até que é um filme feliz à beça mas me deprimiu bastante. Comi todo o chocolate tomei a Coca saí do cinema me sentindo meio que vagando. Deveria ter ido assistir ao outro filme, pra dizer a verdade é que eu fiquei meio frustrado porque não conseguia estar completamente na merda sem ter aquele entusiasmo do Zorba. Ele não se preocupava com nada e não ficava almejando ser um bacana nem nada estava muito bem daquele jeito e não tinha ninguém pra importuná-lo. É o tipo de pessoa que vive só pr’aquele dia e nada mais importa, nada mais, como o Jack Helm. Ele brilhava na tela sem dúvida que sim. E nem de dançar eu gostava. Se quisesse comemorar algo não sabia como fazer, essa é que era a verdade. Eu não sabia como comemorar nada droga nenhuma por melhor que fosse. Mas pensar que aquilo era só ficção me amortecia um pouco.”
[O habitante das falhas subterrâneas – ana paula maia]


4 Comments:
At 4:51 AM,
Anônimo said…
Seria Anthony Queen uma cueca ou uma cueca: O Grego?
ARIELA(hehee)
At 10:12 PM,
Anônimo said…
Muito interessante, vou ler o seu romance.
At 10:21 PM,
Franklyn Gallani said…
Caí sem querer por aqui, seguindo a trilha do "Paralelos" da Globo.com. Grata surpresa. Acompanharei com carinho a saga dos "abatedores de porcos".
At 8:20 PM,
Anônimo said…
Valeu pessoal!
ana paula maia
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