Killing Travis

Blog de Ana Paula Maia

08 janeiro 2006

Aqui Embaixo

Caí nesse buraco quando meu relógio despertou meio-dia. Eu mesmo pus para despertar nesse horário por causa do meu remédio. Remédio para pressão. Sou novo à beça, mas porra, já preciso controlar a pressão. Ela sobe de repente. E às vezes cai de repente. Sempre estou despressionado. Flanando num desconforto de quem nunca sabe se vai subir ou descer. Tipo vida de ascensorista.

Ok, agora caí num buraco, justamente porque me distraí desligando o alarme do relógio e nem com meus remédios para a pressão eu estou. Dei uma saída rápida até o mercadinho da esquina para comprar pão de forma, maionese e duas lata de coca-cola. Maionese é salgada, boa para suspender a pressão. Coca-cola é doce, boa para abaixar a pressão. Isso já é um grande conforto, enquanto imagino um jeito de sair desse buraco. Um buraco bem grande, me cabe de pé, inteirinho.

Agora dou uns gritos de socorro. Uns gritos ridículos. E ninguém aparece. Grito mais alto e mais alto e ninguém aparece. Uma rua deserta, bastante tranqüila. Ufa, o celular no bolso. Carregado.

Preciso ligar para alguém, é constrangedor, eu sei, mas ninguém olha aqui pra dentro ou ouve meus gritos.
Sinto meu peito arfar. Pressão subindo. Abro uma latinha de coca-cola. Espuma porque está quente. Bebo depressa e sinto que logo relaxo. Apanho meu celular novamente e ligo para Amanda, minha namorada. Ela não atende. Talvez esteja numa reunião de trabalho. Amanda trabalha numa agência de turismo. Uma boa agência que organiza cruzeiros, viagens exóticas, coisas bem caras. Ela ganha bem. Bem mais do que eu.

Insisto mais um pouco, mas acho melhor não deixar recado em sua caixa postal, talvez seja desagradável, pra mim evidentemente. Oi amor, estou preso num buraco. Pode vir até aqui me apanhar? Não, não. Amanda já me livrou de alguns buracos nessa vida, bem mais difíceis de sair.

Dou uns pulos ridículos, mas ando meio obeso para querer me livrar disso sozinho, sem contar que com esse calor, bah, minha pressão está começando avariar. Mais uns goles do refrigerante e sinto aplacar alguma agitação. Definitivamente, não vou conseguir sair daqui sozinho. Nem gritando ou pulando. Estou preso nesse buraco e pode parecer até metafórico. Acharia lindo isso num filme. Amanda até choraria. Olhando para o alto, o céu azul demais e o sol aceso demais, me dá certa náusea.

Consulto a agenda do telefone e não, não, não. Ah.... Guilherme. Talvez sim. Guilherme é meu vizinho e trabalha em casa. Ele faz títulos em português para filmes estrangeiros. Faz muitos títulos por dia e às vezes pede minha sugestão. Acho que é forte o bastante para me tirar daqui.

Oi Guilherme, sou eu sim. Reconheceu o número, né? Pois é rapaz, tá quente sim. Não, não sei. Nunca ouvi falar. Se é um bom título? Talvez, né? Pois então. Um filme paquistanês? Eles fazem filmes, não sabia. Esse título não os ofenderiam? Não, sei..... mas devem haver paquistaneses aqui, né verdade? E eles podem não gostar muito da tradução e fazerem uma retaliação. Hã, hã.... pode ser. É, acho que assim fica bem melhor. Acho que nesses tempos devemos tomar precauções. Esse título é ótimo, mas eu acho que....... Ah sei. O consulado do Paquistão? Não sei mesmo. Quer saber? Estamos tão distantes disso tudo que.... coloque esse título mesmo. Até porque ninguém tá interessado em filmes paquistaneses. De nada Guilherme, sempre que precisar. Até mais. Tchau.

Continuo preso no buraco e perdi a chance de rogar por socorro. Os paquistaneses têm uma urgência maior, eu quero acreditar nisso.

Então vamos lá. Todos os números estão ocupados até que consigo o número de uma amiga do trabalho. Ela trabalhava no andar debaixo e foi mandada embora. Mora aqui perto. Estando desempregada é provável que esteja em casa.

Oi Glorinha, tudo bem? Sei sei... é chato mesmo. Mas sabe de uma coisa querida, eles saíram perdendo. É sim... sem você lá, não tem aquela alegria, aquele bom humor. Não chore não. Logo, logo você vai arrumar coisa melhor. Eu sei que a empresa é a melhor no ramo, que você tinha um plano de carreira, mas você vai se dar muito bem, acredite. Não chore mais, viu? Foi bom falar com você também querida. Um beijo. Tchau.

Pobrezinha. Glorinha está tão magoada. Não poderia nunca pedir que viesse até aqui. Coitada, está mesmo afogada em mágoas.

Dou mais uma bisbilhotada em meus números. Heraldo. Nome péssimo, mas é um ótimo sujeito. A mulher está grávida, será pai em breve. Quanta felicidade.

Oi Heraldo, como vai? Bem eu queria te ....... Ah, sim, eu espero. E eu aguardo alguns instantes. Ele deve voltar logo. Vejo um pássaro preto me sobrevoar. Não gosto disso porque é agourento. Um pássaro de olhos encarniçados. Ah.. oi Heraldo... tudo bem, eu espero você retornar então. Um abraço.

Ocupado demais. Como eu já disse, mulher grávida, será pai em breve. Deve tomar todo o tempo do mundo mesmo. Resolvo me sentar porque sinto-me sufocado, agitado. Abro a outra lata de coca-cola. Tomo algumas goladas e sinto despressionar-me.

Tento a Amanda mais uma vez e ela já atende dizendo: Amorzinho, não dá pra falar agora. Daqui a pouquinho eu te ligo. Beijinho.

É sim um céu lindo. Azul como os olhos de Amanda e o sol é iluminado como seu sorriso. Minha namorada é como um céu de verão e sou um homem completamente apaixonado. O que é um buraco como esse, quando se tem um céu te amparando, te cortando com raios luminosos e quentes. O céu nunca está ocupado demais, o sol nunca se apaga. Basta suspender o olhar e ele está sempre lá, até quando há nuvens.

Minhocas começam a subir nos meus sapatos. São minhocas gordinhas e adoram passear sobre mim. Termino meu refrigerante deixando algumas gotas para elas, mas não parecem gostar disso. Acho que minhocas só comem terra mesmo.

Não parece, mas já faz muito tempo que estou aqui e o sol continua firme lá encima, não demonstra cansaço ou palidez.

Existe mais um número possível, o último conhecido possível. Mora e trabalha no bairro vizinho. É dono de uma empresa de transportes e talvez mande um de seus funcionários até aqui. Basta um telefonema dele e certamente um daqueles brutamontes me arranca daqui rapidinho.

Bem Cardoso, fico até sem jeito de dizer isso, mas é que queria te pedir um grande favor. Você não vai acreditar, mas estou num buraco. Hã... você também está? Faliu? Ah... Cardoso, sinto muito, sinto muito mesmo. Não, não, é claro que entendo. Os bancos não perdoam não. Vai vender seu apartamento? Lamento Cardoso. Desculpe o incômodo e tenha uma boa tarde.

Queria saber quantos buracos pode haver nessa cidade. Tenho a estranha sensação de estar no mais superficial deles. Daqui do meu telefone, não consigo falar com uma telefonista. Ligo para o meu trabalho e peço a recepcionista o número do rádio táxi. Ela já sabe de cabeça e eu memorizo rápido qualquer coisa.

Vinte minutos e o velhote enfia a cara no buraco. Hei rapaz, como foi parar aí? Achei que fosse trote.
Como vê, não é trote. Agora, senhor taxista, me tira daqui. Depressa e sem perguntas por favor. Não, não..... não se preocupe, eu imaginei que me tirar do buraco me custaria um pouco mais. Estou disposto a pagar. Pago o resgate e a corrida, senhor taxista. Não, não tinha ninguém pra me buscar...... estão todos ocupados. Eu sei..... tenho poucos amigos e eles estão sempre muito ocupados. Eu conto como caí quando o senhor me tirar daqui. É, eu sei.... tô meio acima do peso, mas se o senhor se esticar mais um pouquinho eu consigo segurar a sua mão. Ah.... a coluna, o coração? É sim, é um problema, senhor taxista, e eu sofro de pressão. Ah.... o senhor também.. sei... hã hã.... sua sogra está com catarata? Nos dois? Que coisa..... não, não..... aqui embaixo é até confortável, com essas minhoquinhas. Elas me fazem companhia enquanto o senhor fala sobre a cirurgia para a remoção do cisto da sua mulher. Que coisa, não?


[estranhamente escrevi este contito enquanto escutava “Tom Sawyer” do Rush.]