Killing Travis

Blog de Ana Paula Maia

19 dezembro 2005

Novo personagem do folclore nacional. “Criaturas que comem uma vez por ano”

Fiquei me fazendo promessas de que não escreveria sobre o natal. Nada mesmo relacionado a data. Mas meu juízo fica sendo cutucado o tempo todo e aí não tem jeito.

Bem, o natal já está pertinho e o espírito solidário, amigo, benevolente e altruísta vêm nos rondar. Já posso ver a fila, pequenos e grandes aglomerados de pessoas. Aquelas que esperam durante todo o ano para serem beneficiadas pelo tal espírito que baixa em alguns cavalos da sociedade. Aquelas pessoas que comem somente uma vez no ano. Como não? Não sabiam disso? Elas existem e às vésperas do natal elas se preparam. Preparam-se para serem recolhidas, levadas para alguma instituição onde poderão tomar banho, vestir roupas limpas e comer. Sim, essas pessoas, assim como o Papai Noel aparecem uma vez no ano e são tão agraciadas e procuradas quanto o bom velhinho.

É bom saber que uma família não sentirá fome neste natal. Terão a mesa farta. Aquele peru ou frango gordo. Arroz e feijão. Farofa com lingüiça, maravilha, não? E aí, os cavalos que recebem o espírito solidário podem deitar e dormir satisfeitos de que ao menos no natal essa família terá o que pôr na panela. Acontece que o natal dura um dia. E só. Aí no ano seguinte, os cavalos voltam para nova oferenda aos miseráveis e lá encontram os sobreviventes. As pessoas que comem e se fartam uma vez ao ano e depois desaparecem. Nunca mais os vemos. Não lembramos de seus rostos. Nomes? Não perguntamos. Engraçado, não demora farão parte de nosso folclore: Papai Noel, Saci Pererê, Coelhinho da Páscoa, Criaturas que comem uma vez por ano. Isso me lembra o mutante Eugene Tooms, da série Arquivo X, que despertava a cada trinta anos para se alimentar e depois hibernava por mais trinta anos. Ótimo episódio.
Então deve ser isso.. os miseráveis hibernam o resto do ano e acordam somente no natal. Ahhhh.. tá explicado. OK.

Bem, já estou me perdendo e e e..... Ah sim.

O importante é: assim como se leva flores para Iemanjá, uma tradição costumeira, leva-se também oferenda aos miseráveis, as criaturas que comem uma vez ao ano. E depois, diante da televisão arrotamos o pernil, o chester, o tender, nostalgicamente assistindo ao especial do Roberto Carlos.

Viva! É Natal.

2 Comments:

  • At 5:24 PM, Blogger Paulodaluzmoreira said…

    Ana Paula,
    Gosto do seu blog (já te mandei um e-mail). Vai aí meu presente de Natal - nada como um Drummond novinho, bem ácido, para um verdadeiro jingobéu:

    Papai Noel às Avessas
    Carlos Drummond de Andrade

    Papai Noel entrou pela porta dos fundos
    ( no Brasil as chaminés não são praticáveis),
    entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
    Tateando na escuridão torceu o comutador
    e a eletricidade bateu nas coisas resignadas.
    Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
    achou um queijo e comeu.

    Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender,
    teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
    ( no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
    e avançou pelo corredor branco de luar.
    Aquele quarto é o das crianças.
    Papai entrou compenetrado.

    Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
    mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
    soldados mulheres elefantes navios
    e um presidente da república de celulóide.

    Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
    no interminável lenço vermelho de alcobaça.
    Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
    que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do
    aperto.
    Os pequenos continuavam dormindo.
    Longe um gato comunicou o nascimento de Cristo.
    Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
    apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

    Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

    Tchau,
    Paulo

     
  • At 12:06 PM, Anonymous Anônimo said…

    Ótimo presente. Coube certinho na minha meia. Valeu :)

     

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