Killing Travis

Blog de Ana Paula Maia

09 dezembro 2005

História para desolar crianças

Dia desses me perguntaram qual o primeiro livro que li. Eu não me lembro. Talvez tenha começado com gibis. É o mais provável. Mas aí eu me lembrei de um livro que li, e esse é o primeiro de que me lembro. Minha mãe me deu uma coleção de livros infantis, mas hoje percebo que não eram assim tão infantis. Eram uns quatro, cinco livros brancos, capa-dura e grandes.

Bem, a história de que me lembro era assim:

Havia uma jovenzinha, loura e bela, que morava com a avó numa casinha bem simpática. A avó estava bem doente, mas nem aparentava. Estava sempre corada e tudo. A cidadezinha passava por umas calamidades por que não chovia fazia muito tempo. Mas o engraçado que isso não impedia que a grama fosse sempre verde e as árvores frutíferas. Talvez um descuido do ilustrador. Mas como criança eu não percebia isso, é claro. Diante de tudo, havia alegria para aquelas duas pessoas. Avó e neta se amavam e cuidavam uma da outra com dedicação.

Enfim..... um dia aparece uma mulher alta, esguia, vestida como a Mortiça Adams, e que tinha um par de olheiras roxa. A mulher conquista a confiança da jovenzinha e de sua avó, cada vez mais doente. E vivem as três por um tempinho juntas, entre conversas e coisa e tal. A tal mulher gostava de falar em parábolas, nas entrelinhas.

Finalmente veio a chuva e a alegria foi completa. A jovenzinha loura dançando no meio da rua com as outras pessoas e aquela alegria. Quando voltou para casa, sua avó estava morrendo. Acontece que a tal mulher era a morte. Então, ela acaba levando a vovozinha, deixando a jovem loura, molhada e sozinha.

Putz..... eu não me esqueço disso. Li essa história muitas e muitas vezes porque me fascinava. Algo ali me fascinava por completo e era a minha predileta entre todas. Não conheci os clássicos da literatura infantil, conheci uma história punk de verdade, over.
Crianças não deveriam ler isso. Eu tinha meus sete anos, por aí. Quer dizer, não deviam dizer pra gente que certos finais são assim mesmo. Conquistam tua confiança, te tomam algo de precioso e te abandonam.

Essa história deveria ter a parte dois. Mas não teve. Terminou assim, triste e estranha. Uma história desolada que não deveria ser contada para crianças, até porque poucos adultos gostariam também. Não havia uma moral na coisa toda. Era pura tragédia. Sem direito de resposta.

Acho que quando se lê algo assim ainda na tenra idade sem nunca mais esquecer, certamente causa certos caroços na alma. No entendimento humano. Talvez seja por isso que nos finais de minhas histórias há sempre um gosto desolado, um embargo de sensações reclamando a parte dois.

1 Comments:

  • At 12:38 PM, Anonymous Anônimo said…

    Entretanto, por mais duro que possa ser, eu faria chegar às mãos do meu filho, assim que a ocasião fosse propícia, um livreto mais ou menos como esse. Com duras verdades. Pois há beleza intrínseca quando ela, qualquer verdade, é expressa pela arte. Não se trata de violência, a meu ver; mas sim de, como diria a Clarice, uma "descoberta do mundo". Abraços...

     

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