Killing Travis

Blog de Ana Paula Maia

21 novembro 2005

Goeldi e O sangue no meu sapato

Um dos artista plásticos brasileiros mais inquietantes na minha opinião foi Oswaldo Goeldi, que inclusive acabou de ganhar um site muito legal. É o Centro Virtual Oswaldo Goeldi
Entrei em contato com a obra dele pouco antes de participar da coletânea “Contos sobre Tela” (organizada por Marcelo Moutinho, ed. Pinakotheke) lançada no início deste mês, com um conto chamado “Teu Sangue em Meus Sapatos Engraxados” para sua tela, uma xilogravura, chamada “Lugar do crime”.
Cada autor escreveu um conto sobre uma tela de um artista nacional de sua preferência e o resultado ficou excelente.

Comecei apreciar imagens impressas nos quadrinhos de Sandman. São os melhores desenhos na minha opinião e depois de ler as estórias eu voltava para “ler” as imagens com cuidado. Algumas eu não esqueço e isso faz muito, muito tempo. Na adolescência.
Depois esbarrei com o Salvador Dali. Fui à exposição. Fiquei fascinada. De lá pra cá conheci obra de outras artistas, como o norueguês Edvard Munch, (que além de tudo soltava frases como: "Não devemos pintar interiores com pessoas lendo e mulheres tricotando; devemos pintar pessoas que vivem, respiram, sentem, sofrem e amam". E todos com aquela atmosfera sombria, sufocante. Meu favorito é o Edward Hooper. Mas gosto também de artista como o Roy Lichtenstein que utilizou a linguagem dos quadrinhos.

Confesso que pinturas de pêras, maças não me comovem. Eu fico olhando, olhando e nada acontece. Olhar para frutas não me comove de modo algum, talvez se estiver com fome. Não sei apreciá-las, mas sei degustá-las. Bem, isso já é alguma coisa e mostra que ao menos meu paladar não é insensível.

Eu digo assim: Puxa, esse índio aí pintado não me comove. Não me remete a mais nada senão a uma tribo. Essa paisagem do sertão, toda essa vastidão também não. Esses pescadores, esse barquinho... enfim... nada me comove de fato, a não ser o desespero sufocante, o grito silencioso que parece ser meu em certas obras.

Evidentemente, não entendo patavina de artes plásticas, acho que tenho uma sensibilidade enviesada para tal, mas gosto de imagens soturnas, que evocam mistério. Imagens que se escondem nas sombras, nos cantos da tela, deixando o apreciador sem saber o que está acontecendo exatamente.
Em uma de suas frases, Goeldi disse:

"Cada traço é um pedaço de nervo com a veemência de um coração bárbaro."

É disso que falo. Desse estado intermitente de sensações, dessa verve sangrenta. Espero, sinceramente, ter um coração bárbaro assim, para traçar palavras com os nervos.

Além do Goeldi, gosto muito do Lourenço Mutarelli, esse é extraordinário e fico feliz por ser também um brasileiro, retratando com tanta fúria e traços desconcertantes. Gosto muito de quadrinhos e o filme Nina, que é o ô de fraquinho, só vale a pena pelas animações dele.

Bem, essa tela do Goeldi que escolhi tem cara de quadrinho e a visão através de uma janela quebrada numa noite desolada. Do outro lado da rua, pode-se ver dois prédios velhos, abandonados.
Engraçado, mas a tela me lembra muito uma fase do jogo Duke Nuken, ao qual dediquei horas de minha vida, faz muito tempo. E numa das etapas eu subia até um prédio, olhava através da janela e era tudo bem desolado porque eu já havia matado todos os monstros e estava só. Do outro lado da rua, havia um prédio também e eu acionava um botão e o colocava abaixo. Era uma ótima explosão e a melhor etapa da fase. Depois eu ia até lá ver o que havia sobrado.

Bem... já tô me perdendo, mas antes disso, vou deixar aqui um trechinho do conto. É meio gótico e eu gosto muito dele.

“Não falo de amor ou ódio, falo dos monstros que me deixam acordado. Que me fazem avançar, sombras que me perseguem, rastejando, tentando abocanhar meu calcanhar. E eu posso sentir a nuvem de fuligem espessa armazenada sobre minha cabeça. É a lua, entende? Esse maldito satélite sem luz própria que traz o desespero do sol, do péssimo dia que tive. Quanto mais eu ando, mais percebo que a lua corre depressa. Não dá para alcançá-la e as estrelas já estão mortas... brilham, mas não existem mais. Mortas imortais morrendo a vida de outros.”


A coletânea “Contos sobre Tela”, será lançada nesta semana em São Paulo
Quem ler esse post, sinta-se convidado. Eu estarei lá!

Mercearia São Pedro
Rua Rodésia, 34, Vila Madalena, São Paulo
Dia 24 de novembro às 20h
tel.: 3815-7200

Participam os autores: Adriana Lunardi (Pedro Weingartner), Ana Paula Maia (Goeldi), Antônio Mariano (Pedro Américo), Arnaldo Bloch (Gonçalo Ivo), Bianca Ramoneda (Waltércio Caldas), Diana de Hollanda (Ismael Nery), Fabrício Carpinejar (Guignard)), Flávio Izhaki (Di Cavalcanti), Ivana Arruda Leite (Pancetti), João Anzanello Carrascoza (Raimundo Cela), João Filho (Rubem Grilo), João Paulo Cuenca (Leonilson), Luciano Trigo (Adriana Varejão), Marcelo Moutinho (Ibere Camargo), Nelson de Oliveira (Cândido Portinari) e Pedro Süssekind (Milton Dacosta).

3 Comments:

  • At 10:11 PM, Anonymous Anônimo said…

    Adorei o nome do blog. Killing travis é punk!
    E adorei as coisas que vc escreve aqui.

    Fabricio

     
  • At 12:05 AM, Anonymous Anônimo said…

    acho que vc escreve com algum nervo.... pelos posts que li aqui. Mas acho mesmo que o seu coração é ainda mais bravo.

     
  • At 12:05 AM, Anonymous Anônimo said…

    acho que vc escreve com algum nervo.... pelos posts que li aqui. Mas acho mesmo que o seu coração é ainda mais bravo.

     

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