Killing Travis

Blog de Ana Paula Maia

18 novembro 2005

As cores da consciência

Dia nacional da Consciência Negra e a editoria do mais novo jornal carioca, Q! me liga para eu responder algumas perguntinhas. Disseram que sairia hoje no site do jornal, mas não vi nada lá. A verdade é que tive a estranha sensação de que está sempre faltando um pedaço do site.

Tenho minha metade negra, mas não posso negligenciar minha metade branca. Minha mãe caucasiana. Que nunca me ensinou essas coisas de consciência, mas sim coisas de caráter.
Meu pai negro, trabalhava demais pra pensar nisso, pensava em juntar dinheiro e essa era toda sua consciência. “Mede-se alguém pela quantidade de dinheiro. Respeita-se alguém pelo valor de seus bolsos...” coisas desse tipo é no que ele acredita, mas não expressa-se com tanta clareza.

Sempre pensei nas pessoas como indivíduos. Me aproximo delas pelo o que têm a me dizer. Compartilhar. Sejam homossexuais, bruxos, viciados em algum troço qualquer, alcoólatras, gordos, magros, feios, bonitos, pretos, amarelos, brancos e violetas.

Consciência tem cor? A minha não. As vezes é meio magenta, meio cor-de-rosa, meio negra, meio desbotada; em geral é incolor. A minha depende do meu humor, e não da cor da minha pele.

Dar para o negro um dia específico para comemorar suas raízes, (evidentemente, Zumbi dos Palmares fez um bravo trabalho e deve ser lembrado e coisa e tal.) é colocá-lo à margem de uma cultural universalizada. É dizer: Hei filhinho, você é negro e tenha consciência disso. Mas o garoto branco não ouve ninguém dizer para ele: Hei filhinho, você é branco e tenha consciência disso. Alguns diriam que é porque ele já nasce favorecido por ser branco. Pif!

Porra! É separatismo. É apartheid de consciência. De valores. Odeio rótulos. Odeio dias comemorativos. Odeio convencionalismos.

Deixe o garoto da periferia, negro, mestiço, branco... ler “O Apanhador no Campo de Centeio”, ele se identificará certamente, porque a arte transcende assim como consciência.
Porque os projetos sociais, pelo menos a grande maioria, só se preocupam em levar para as comunidades carentes oficinas de dança, música, capoeira, (pelo menos no geral) e não existe um programa efetivo de oficinas literárias o ano todo. Se existe isso, perdoe a ignorância e me digam onde isso ocorre.

Faça com que esses garotos negros e pobres em sua maioria, saibam quem é Hermann Hesse e seu livro “Demian”; Shakeaspeare, Dostoievski em sua genialidade e essência.
Diga a eles quem foi Zumbi dos Palmares, mas diga também quem foi Meliés, caramba. Será que eles não se comoveriam ao assistir filmes do Tim Bruton, como “A fantástica fábrica de Chocolate” ou os adultos, aos filmes do Abbas Kiarostami, sei lá. Nós assistimos e gostamos porque nos ensinaram a interpretar, a visualizar, então não subestime-os e ensine-os também. Isso é traze-los à inserção social e não apagar suas raízes negras ou a cor que tiver. É dar subsídios, informação. Sinceramente, dançar o maculelê, não vai inseri-los em nada além de grupos de maculelê. E uma sociedade pensante não é engendrada por grupos de maculelê, por melhor que eles dancem.

Mas aí está a grande questão.... Deixe que dancem o maculele. Dê a eles uma semana comemorativa. Estampe-os em selos. Não traga-os a inserções de coisa alguma, deixe tudo como está. Submissos e assim permanecerão. Sem informação é mais fácil dominá-los. Pão e circo.

As inquietações do indivíduo, aquela sensação que nos impulsiona é que é vital para se construir caráter, identificação. Lembrar ao negro que ele é negro, muitas vezes é tolir a chance que ele tem de ser um sujeito pensante e atuante.
É dizer: Você é negro. E não, o mais importante, “Você é um indivíduo. Tem suas neuras e aspirações. Vá em frente, só se vive uma vez. Tome a vida pelas mãos e meta as caras”. E não essa lenga-lenga: “Você é negro, é pobre, é desfavorecido.” Isso o coloca aquém dos valores sociais e enquanto a gente comemorar essas merdas por aí e dizer que consciência tem cor, porra, nunca o negro fará parte da sociedade coisa nenhuma e o máximo que conseguirá é continuar sendo alvo de “peninhas”, e a criação de mais novas cotas para os pobres coitados. Além de estampar selos comemorativos e robustos traseiros em cartões-postais (mas isso eles querem abolir, não é?). Enfim... tudo isso só cria mais folclore.

Quanto mais penso, percebo que é separatismo mesmo. Sou mulher e não acredito que minhas inquietações femininas devem necessariamente permear a literatura que faço. Escrevo em primeira pessoa masculina e daí? Conto minhas estórias, ainda que alguns dizem que “cuspo no chão e coço o saco quando escrevo.” E daí, se sou mulher e escrevo como um garoto.

A arte, eu acredito, assim como a consciência não tem cor, sexo. É sem par. Ela transcende, e é verdade, quando escrevo sou assexuada e minha pele não tem cor, graças a Deus.

Isso é ser livre e ter consciência disso.