Killing Travis

Blog de Ana Paula Maia

15 dezembro 2005

Como deixei de brincar com o pogobol

Gostaria que isso fosse apenas um relato fictício, mas não é. Aconteceu mesmo.

Bem, ontem eu estava passando pela rua e uma senhora mulata descia de uma bicicleta e a atava à grade do supermercado. Uma cena assim boba, passageira, mas olhei bem e me dei conta de que era minha vizinha. Ali, amarrando a bicicleta, com ar cansado, debaixo do sol que fazia, putz... só mais uma mulher pobre, de semblante sofrido. Ok... até aí necas.

Quando criança, eu costumava brincar na porta da casa dela, com a filha que havia ganhado de presente um pogobol. A menina era boazinha e me deixava pular à vontade. E eu ia de um canto ao outro, saltitante e feliz toda a tarde. A mulher era gentil, simpática até, e era paga para cuidar de uma garotinha de uns cinco, seis anos, que ficava na casa dela durante parte do dia. Me lembro vagamente da garotinha espiando a gente na calçando de pogobol nos pés.

Não me lembro a razão, mas deixei de ir lá brincar, nunca mais vi a dona do pogobol e sua mãe. Muito menos a garotinha de quem ela tomava conta todos os dias. Nunca mais andei num pogobol, nem ganhei um de presente. A verdade é que ele traz certas lembranças.

Acontece que um dia, sei lá a razão, essa mulher matou de tanto bater a tal garotinha. Assim, enquanto tomava conta da menina. Espancou até a morte, dentro de sua própria casa. E foi presa. A filha e dona do pogobol teve que crescer rápido, com a mãe encarcerada. É aquilo, aquela senhora, quem diria. Uma mãe de família que tinha apenas um filha também pequena e um marido.

Depois de muitos anos, a mulher voltou a circular pelas ruas. Havia cumprido a pena. Não demorou, o marido foi assassinado na esquina de sua casa. À balas. O rabecão recolheu o corpo, mas deixou o sangue no chão. Ela, apanhou um balde e um esfregão e gritava: “Ninguém vai pisar no sangue do meu marido. Ninguém vai pisar no sangue do meu marido”. Era assim mesmo. Eu passei por lá depois, pisei naquele pedaço de chão e ela havia conseguido tirar grande parte do sangue. Não me esqueço. Ela de joelhos, esfregando o asfalto.

Poucos anos depois, eu passo pela rua, diante de um supermercado, e aquela mesma senhora, agora grisalha e ainda mais cansada, ata uma bicicleta à uma grade verde. Tenho certeza de que os outros ao redor jamais imaginariam essas coisas dela. Tenho certeza de que ninguém à nossa volta sabia daquelas histórias e por tudo o que ela havia passado, sofrido, cometido.

Você pode matar uma criança de tanto espancar, lavar o sangue do marido assassinado no asfalto para ninguém pisar e depois entrar num supermercado e sei lá..... ceiar o Natal. É estranho pensar nisso e não me faz nada bem. Estranho pensar no que pode existir por trás desses rostos que cruzamos por aí e nem fazemos idéias de suas histórias.

*That´s all folks*

1 Comments:

  • At 9:46 AM, Anonymous Anônimo said…

    Maia, e você saltitou no pogobol da assassina. Depois todos se encontram no supermercado. É bom nem pensar. um beijo grande!

     

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