Killing Travis

Blog de Ana Paula Maia

28 dezembro 2005

Hipérbole

Na faculdade eu filava na cara grande algumas aulas do curso de cinema. Sempre passei desapercebida. Todos achavam que eu fazia cinema mesmo, enfim. Acho que existe uma linguagem direta no nosso modo de se vestir.

Passei a assistir regularmente aulas de roteiro II ou III não me lembro, num período já avançado. Me apresentei ao professor, chamado Molina. Um cubano. Nunca entendi muita coisa do que dizia, mas era um sujeito legal e me deixou participar das aulas. Aí, como dever de casa foi precisoescrever um roteiro bem curtinho. Coisa para uns três minutos
de filmagem. Conclusão: Ele escolheu o meu "dever de casa" e eu tive que ler de pé diante da turma e ter o trabalho discutidoem classe. O melhor foi que gostaram e nunca estranharam o fato de eu ter surgido assim, de repente.
Coisas de cinema.


*HIPÉRBOLE*


EXT. PRAÇA _ DIA.
Dois rapazes sentados num banco conversam desanimados enquanto tomam um sorvete.


_ Ninguém morre de susto. Isso é força de expressão.

_ Hipérbole.

_ Hã..?

_ Exagero... figura de linguagem.

_ Sei..

_ Aposto contigo que morre sim.

_ Fechado. Mas eu quero ver como você vai provar isso.

_ Mostrando uma foto da tua irmã pelada. (rindo)

_ Imbecil.


EXT. LINHA FÉRREA _ DIA
Na linha férrea, um homem encapuzado e amarrado, geme abafado.


_ É só esperar.


[O trem aproxima-se. Sentem aversão em olhar o que ocorre em segundos. O trem passa na linha ao lado. O homem amarrado está quieto.]


_ Vai olhar?

_ Claro.


[Verifica o pulso.]


_ E aí...?


[Um dos rapazes estica a mão para receber sua parte na aposta.]


_ Tá certo. Você tinha razão... você sempre tem razão.


EXT. PRAÇA_DIA
Os dois rapazes estão sentados novamente no mesmo banco. Conversam ainda desanimados.


_ Pra fazer isso... deve ser depressão.

_ Frescura.

_ Que nada! É depressão. Depressão até mata.

_ Hipérbole. Ninguém morre de tédio.... por pior que seja.

_ Aposto contigo que tédio mata.

_ Quanto?


[Uma nota de um real é lançada sobre o banco.]


_ O de sempre, ora.


[The end.]