Indefectível cidade...
"As ruas do centro e seus freqüentadores que só saem à noite; depois do expediente ratos e mendigos têm algumas horas para desfrutar daquilo que só conhecemos de dia. Espalhados pelos cantos, isolados ou em pequenos grupos, estão sempre lá chafurdando no lixo, espantando os ratos que querem desfrutar do jantar. Os ratos aos milhares sob nossos pés, nos esgotos subterrâneos vêm à superfície e precisam disputar com o homem o que comer. Sem dúvida, um dia eles vão se cansar disso, os ratos, e teremos uma revolução por aqui.
Os ratos saem dos esgotos para procurar os restos de comida, a gente procura os restos do dia. Uma cidade como essa produz muita comida, sobras, lixo e gente como você e eu. Sou a sobra do dia. Se me distraio, os ratos me devoram.
Avançando em direção ao metrô encontro um velho sentado no chão. Sujo e fedido. Nem os ratos se aproximam, talvez apenas quando estiver morto para arrastarem sua carcaça para o esgoto; refeição para dias. Um velho frágil, certamente nem seus ossos sobrariam. Deve ter osteoporose; ossos quebradiços e facilmente triturados por roedores. Um vexame de horror desmedido.
Ele diz que tem uma ferida e que mostrará se eu lhe der algum trocado. Por que eu haveria de querer ver uma ferida? E pelo tamanho da faixa em sua perna deve ser grande. Eu rio com a conversa. “Venha e veja”, é o que o velho diz. “Tenho uma ferida aqui e você nunca viu uma dessas antes.” Dou umas passadas, ignorando, mas é tarde demais. Sinto alguns trocados no bolso e jogo para ele. Quero vomitar. Com a ferida, com a minha curiosidade. Há larvas nadando na carne esponjosa. Ele está sendo devorado vivo e os ratos o rodeiam, respeitando o árduo trabalho das larvas para depois arrastarem-no."
[trecho do conto "Desmedido Roger"_ ana paula maia]
Os ratos saem dos esgotos para procurar os restos de comida, a gente procura os restos do dia. Uma cidade como essa produz muita comida, sobras, lixo e gente como você e eu. Sou a sobra do dia. Se me distraio, os ratos me devoram.
Avançando em direção ao metrô encontro um velho sentado no chão. Sujo e fedido. Nem os ratos se aproximam, talvez apenas quando estiver morto para arrastarem sua carcaça para o esgoto; refeição para dias. Um velho frágil, certamente nem seus ossos sobrariam. Deve ter osteoporose; ossos quebradiços e facilmente triturados por roedores. Um vexame de horror desmedido.
Ele diz que tem uma ferida e que mostrará se eu lhe der algum trocado. Por que eu haveria de querer ver uma ferida? E pelo tamanho da faixa em sua perna deve ser grande. Eu rio com a conversa. “Venha e veja”, é o que o velho diz. “Tenho uma ferida aqui e você nunca viu uma dessas antes.” Dou umas passadas, ignorando, mas é tarde demais. Sinto alguns trocados no bolso e jogo para ele. Quero vomitar. Com a ferida, com a minha curiosidade. Há larvas nadando na carne esponjosa. Ele está sendo devorado vivo e os ratos o rodeiam, respeitando o árduo trabalho das larvas para depois arrastarem-no."
[trecho do conto "Desmedido Roger"_ ana paula maia]
*That´s all folks*


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