Dever de aula
Para onde vão os membros decepados numa cirurgia? Isso pode parecer uma dessas perguntas infantis, curiosidade banal, mas não é.
Semana passada assisti à dois filmes em que membros foram decepados, e depois me veio a pergunta: O que eles vão fazer com esse pedaço de perna em putrefação? Eles colocam em sacos e levam para uma espécie de necrotério de membros, foi o que imaginei. Colocam tudo dentro de um gavetão. Provavelmente esse lugar é refrigerado. Mas se são membros decepados, quer dizer, já não estava bom mesmo, para que vão conservá-los? E por quanto tempo seria?
Será que enterram depois, me questionei. Talvez os hospitais mantenham um cemitério de membros decepados. Dedos, mãos, braços, pernas, órgãos em geral.
Pensei também se esses membros são nominados. Mão da fulana, pé do beltrano.
Certa feita, entrei no anatômico da universidade onde estudava. Fui dar uma espiada atrás de notícia, junto de mais dois colegas. Notícia entre os mortos, pensei.
Lá era silencioso e fedorento. Ficamos olhando o homem inteiro e nu sobre a mesa de mármore. Ele estava roxeado, rígido e também silencioso. Ele não nos traria nenhuma notícia. Os funcionários não sabiam quem ele era, o que fazia, como se chamava. Era apenas um morto, ainda inteiro. Até a próxima aula de anatomia. Ele era bem parrudo, por isso imaginei que iria dar um trabalho danado e suas vísceras iriam saltar com força logo no primeiro corte. Enfim, era um homenzarrão e daria para fazer muitos estudos nele. Com todo esse pensamento, ainda não tínhamos uma notícia.
Olhei para trás. Havia uma banheira fedorenta. Me aproximei, para minha total infelicidade. Era uma mulher mergulhada em substância química, uma meia mulher, digo. Restava apenas o tronco e sua expressão foi a pior coisa que já vi. Uma expressão eterna de horror. Ela estava repicada, ao lado de mãos de tamanhos diferentes, pés idem, pernas, tocos, partes indentificáveis. Percebi que quando morremos e ficamos assim, conservados, a carne adquiri um aspecto de carne seca, essa tão gostosa de se comer. Os fetos in vitro sobre as prateleira, eram como pequenas relíquias. Antes deles, só havia visto algo exposto com tanta delicadeza e destaque em joalherias.
Entre mortos dilacerados, você passa a pensar nos vivos. Enquanto se pode respirar, viver. Ali, você tem certeza absoluta do que te aguarda. Não é macabro, não para eles, pois já não há alma ou consciência, mas para os vivos, estar entre membros decepados, expostos, submersos em conserva, à espera do próximo sinal, da próxima leva de estudantes, de boçais e patricinhas que irão desmaiar ao vê-los, que irão vomitar ao olhar suas entranhas. É triste, só isso. Mas é necessário também e sei disso. Porém diante de uma coisa dessas você pensa apenas na fragilidade humana.
Passei dois anos e meio sem comer carne vermelha. Não conseguia mais. Só pensava na expressão de horror daquela semi-mulher em carne viva, retalhada lentamente. Pensava nela e nos pedaços deixados naquela banheira, e não comia. Peguei uma anemia. Difícil de curar.
Precisava fazer exames de sangue regularmente e tomar sulfato ferroso diariamente. A médica não conseguia entender pra onde ia o meu sangue. Ela disse que ele se esvaía, que desaparecia. Cheguei a pensar que alguma coisa andava se alimentado de mim enquanto dormia, alguma coisa que não deixava cicatrizes, marcas; alguma coisa silenciosa que não deixava rastros por onde passasse. E meu sangue continuava desaparecendo e eu continuava tomando os medicamentos e fazendo exames regularmente.
A vida fala mais alto e lembro-me da semi-mulher retalhada, mas isso não impediu que lentamente eu retornasse à ingerir carne vermelha. Hoje comi carne no almoço e no jantar. Voltei a comer normalmente já faz uns dois anos e meio. Seu horror, eu me lembrarei por anos, mas percebo que para sobreviver, você supera seus horrores e o dos outros. Fiquei curada.
Naquele dia, meus dois colegas e eu voltamos para a sala de aula sem uma notícia. Não fizemos o "dever de aula", não ganhamos os poucos décimos que o trabalho valeria, mas eu certamente ganhei muito mais.
*That´s all folks*
Semana passada assisti à dois filmes em que membros foram decepados, e depois me veio a pergunta: O que eles vão fazer com esse pedaço de perna em putrefação? Eles colocam em sacos e levam para uma espécie de necrotério de membros, foi o que imaginei. Colocam tudo dentro de um gavetão. Provavelmente esse lugar é refrigerado. Mas se são membros decepados, quer dizer, já não estava bom mesmo, para que vão conservá-los? E por quanto tempo seria?
Será que enterram depois, me questionei. Talvez os hospitais mantenham um cemitério de membros decepados. Dedos, mãos, braços, pernas, órgãos em geral.
Pensei também se esses membros são nominados. Mão da fulana, pé do beltrano.
Certa feita, entrei no anatômico da universidade onde estudava. Fui dar uma espiada atrás de notícia, junto de mais dois colegas. Notícia entre os mortos, pensei.
Lá era silencioso e fedorento. Ficamos olhando o homem inteiro e nu sobre a mesa de mármore. Ele estava roxeado, rígido e também silencioso. Ele não nos traria nenhuma notícia. Os funcionários não sabiam quem ele era, o que fazia, como se chamava. Era apenas um morto, ainda inteiro. Até a próxima aula de anatomia. Ele era bem parrudo, por isso imaginei que iria dar um trabalho danado e suas vísceras iriam saltar com força logo no primeiro corte. Enfim, era um homenzarrão e daria para fazer muitos estudos nele. Com todo esse pensamento, ainda não tínhamos uma notícia.
Olhei para trás. Havia uma banheira fedorenta. Me aproximei, para minha total infelicidade. Era uma mulher mergulhada em substância química, uma meia mulher, digo. Restava apenas o tronco e sua expressão foi a pior coisa que já vi. Uma expressão eterna de horror. Ela estava repicada, ao lado de mãos de tamanhos diferentes, pés idem, pernas, tocos, partes indentificáveis. Percebi que quando morremos e ficamos assim, conservados, a carne adquiri um aspecto de carne seca, essa tão gostosa de se comer. Os fetos in vitro sobre as prateleira, eram como pequenas relíquias. Antes deles, só havia visto algo exposto com tanta delicadeza e destaque em joalherias.
Entre mortos dilacerados, você passa a pensar nos vivos. Enquanto se pode respirar, viver. Ali, você tem certeza absoluta do que te aguarda. Não é macabro, não para eles, pois já não há alma ou consciência, mas para os vivos, estar entre membros decepados, expostos, submersos em conserva, à espera do próximo sinal, da próxima leva de estudantes, de boçais e patricinhas que irão desmaiar ao vê-los, que irão vomitar ao olhar suas entranhas. É triste, só isso. Mas é necessário também e sei disso. Porém diante de uma coisa dessas você pensa apenas na fragilidade humana.
Passei dois anos e meio sem comer carne vermelha. Não conseguia mais. Só pensava na expressão de horror daquela semi-mulher em carne viva, retalhada lentamente. Pensava nela e nos pedaços deixados naquela banheira, e não comia. Peguei uma anemia. Difícil de curar.
Precisava fazer exames de sangue regularmente e tomar sulfato ferroso diariamente. A médica não conseguia entender pra onde ia o meu sangue. Ela disse que ele se esvaía, que desaparecia. Cheguei a pensar que alguma coisa andava se alimentado de mim enquanto dormia, alguma coisa que não deixava cicatrizes, marcas; alguma coisa silenciosa que não deixava rastros por onde passasse. E meu sangue continuava desaparecendo e eu continuava tomando os medicamentos e fazendo exames regularmente.
A vida fala mais alto e lembro-me da semi-mulher retalhada, mas isso não impediu que lentamente eu retornasse à ingerir carne vermelha. Hoje comi carne no almoço e no jantar. Voltei a comer normalmente já faz uns dois anos e meio. Seu horror, eu me lembrarei por anos, mas percebo que para sobreviver, você supera seus horrores e o dos outros. Fiquei curada.
Naquele dia, meus dois colegas e eu voltamos para a sala de aula sem uma notícia. Não fizemos o "dever de aula", não ganhamos os poucos décimos que o trabalho valeria, mas eu certamente ganhei muito mais.
*That´s all folks*


6 Comments:
At 3:27 AM,
Anônimo said…
os fetos........
infecto degeto insecto ou seria insepto, abortos electros ou espontâneos?
e as mães seriam putas sacras ou santas loucas?
220 volts de descarga.
A mulher hystherica??
Será a mulher um bicho inteligente?
Será o homem o bicho um inteligente?
Ou será o pequeno feto um animal irracional?
Kasparóv, o escritor russo que catava estrelas!
At 10:34 PM,
Lucimar Justino said…
Ana Paula,
que situação heim!!! perfeita descrição, choca, bate, faz refletir... Lembrei-me de um artigo que li numa revista de pscanálise que a autora fala de um acidente ocorrido nos Andes em que as pessoas foram obrigadas a comer a carne dos próprios amigos para sobreviverem... aí entra a questão dos valores e tal... quem somos? o que somos?
Um abraço! Bjinhos
At 1:10 AM,
Anônimo said…
Ana querida, nada de errado por aqui.
Entrei como vc me pediu.Acho que é aí mesmo.
Beijos!
At 1:14 AM,
Anônimo said…
Ai querido, brigadão. É aqui então... vou providenciar ajustes.
bj
At 1:16 AM,
Anônimo said…
Valeu Lucimar! O assunto dá mesmo muito pano pra manga, por isso encurtei certas partes, desmembrei um pouco a história.
ana paula maia
At 3:33 AM,
Anônimo said…
as víceras e toda aquela expressão de horror... até tu te tocar que "aquilo" ali tava caminhando outro dia desses, assim como tu agora, é algo que exige, no mínimo, um pouco de reflexão...
Dia desses, na aula de anatomia, tínhamos corações frescos humanos nas mãos... Peraí, daonde tiraram isso? Oh, God... Mas, para formar profissionais, é necessário... Necessidade X Valores... complicado...
Tinha um balde com pintos (órgao sexual masculino) formolizados lá no laboratório esses dias, so funny! hohoho...
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